Daily Telegraph — 02/02/2008
Diablo Cody: Me sinto mais exposta escrevendo do que fazendo strip
A exótica e expressiva Diablo Cody conta a John Hiscock como escreveu o grande sucesso do cinema Juno
Diablo Cody acha que sabe por que atualmente é a grande sensação de Hollywood.
— É estranho receber tanta atenção — diz ela —, mas acho que provavelmente é por causa do striptease.
O interesse que esta linda e transparente mulher de 29 anos desperta pode ter a ver com seu intenso passado no mundo do striptease e dos peepshows. Mas o principal motivo é o roteiro que escreveu para Juno, filme de baixo orçamento que tem sido a sensação em Hollywood. E não só chegou ao topo da lista de filmes mais vistos nos Estados Unidos, batendo A lenda do tesouro perdido: o livro dos segredos e o sucesso estrelado por Will Smith, Eu sou a lenda; o filme também recebeu um total de seis indicações ao Bafta — prêmio da Academia Britânica de Cinema — e ao Oscar, recebendo reverências dos dois lados do Atlântico, tanto para a própria Diablo (pelo roteiro original) quanto para a jovem estrela Ellen Page (pela atuação).
Ao mesmo tempo estranha e emocionante, a nada convencional comediazinha sobre uma adolescente que engravida foi a primeira aventura de Diablo como roteirista e fez com que ela fosse saudada pelos especialistas como a voz mais especial desde Quentin Tarantino.
— Em Hollywood, repetem as mesmas histórias o tempo todo — diz Cody —, e eu queria fazer algo diferente. Juno é uma espécie de busca profunda, tanto pessoal quanto emocional, por mim mesma. Eu coloquei tantas das minhas próprias experiências no projeto que fiquei chocada com o fato de o filme ter ficado tão coerente. Eu consegui colocar no roteiro cada pessoa, cada loucura e cada objeto significativos para minha vida. Eu queria fazê-lo profundamente pessoal. Eu não queria ser genérica.
Juno foi o sucesso surpresa do Festival de Cinema de Toronto em setembro de 2007, mas desde então muito desse êxito foi creditado à fotogênica, exuberante e sempre notável Cody. Mais do que os astros Ellen Page e Michael Cera, ou o diretor Jason Reitman, foi ela quem se tornou a figura pública do filme, sobre quem a mídia debruçou seu maior interesse.
— É muito impressionante — reconhece ela. — Mas é legal. É ótimo, e eu adoro isso, mas está tudo acontecendo ao mesmo tempo. Às vezes eu queria que todas essas coisas maravilhosas fossem mais distribuídas.
A conversa ocorreu em uma festa oferecida pelo presidente da 20th Century Fox, Tom Rothman, em sua casa em Bel-Air (subúrbio chique de Los Angeles), com direito a um disco de fogo flutuando na piscina e convidados amontoando-se em volta dos bares e bufês montados sob as palmeiras. Diablo Cody e Ellen Page são as convidadas de honra, e, como sempre, hoje Cody é a principal atração e é solicitada o tempo todo. Foi um pouco mais fácil conversar quando nos encontramos de novo no dia seguinte, em Beverly Hills.
Cody é uma feminista ousada, esperta e irreverente, um autêntico enigma que recebe e-mails furiosos condenando seu envolvimento anterior com a indústria pornográfica e elogios abundantes de militantes antiaborto conservadores, que saúdam a decisão de Juno de ter o bebê em vez de abortar.
Seu nome verdadeiro não é Diablo Cody, nem Docinho ou Roxanne — os nomes que ela usava quando era stripper. Nascida Brook Busey em Chicago, ela cresceu num lar de classe média suburbana. Depois de terminar a escola católica, ela trabalhou como digitadora e lançou um blog pouco conhecido chamado The Red Secretary. Mudou-se para Minneapolis, casou-se, adotou o nome de Diablo Cody e lançou um novo blog chamado Pussy Ranch. Cansada do emprego de secretariado, conseguiu um trabalho em um clube de strip e durante um ano tirou a roupa, fez lap dances e performances numa cabine de peepshow. Escreveu sobre suas experiências nesse lascivo blog sobre sua vida no palco, nos bastidores e no colo dos clientes.
— Chamei a atenção das pessoas com o sexo, então continuei fazendo strip e escrevendo no blog.
Um produtor e executivo de Hollywood, Mason Novick, descobriu o blog de Cody, sugeriu uma biografia cômica e ajudou-a a conseguir publicar o livro, o que levou a uma aparição no programa de entrevistas de David Letterman. Novick então encorajou-a a entregar um roteiro como amostra.
— Foi incrivelmente natural — disse ela, sobre como transformou a história de Juno em palavras. — Foi como respirar. Vi Juno como uma extensão de mim mesma. Meus amigos e eu éramos como Juno e seu amigo. Falávamos sobre sexo o tempo inteiro.
Até que seu roteiro chegou ao diretor Jason Reitman (Obrigado por fumar):
— Eu estava apenas na metade do roteiro quando me senti tão tocado por ele que percebi que, se não o dirigisse, me arrependeria pelo resto da vida — diz ele. — Achei que era um filme maravilhoso e encantador. Para mim, não é um filme sobre aborto versus adoção. É sobre como um homem de 30 anos se recusa a crescer e uma menina de 16 cresce rápido demais.
Uma das muitas cenas memoráveis do filme é quando Juno confessa aos pais que está grávida. Depois que ela sai, sua madrasta, estupefata, diz com um suspiro: “Eu esperava que ela tivesse sido expulsa da escola ou estivesse usando drogas pesadas.”
Cody construiu a cena a partir da lembrança do momento em que contou aos pais o que estava fazendo para ganhar a vida.
— Primeiro dei a eles a boa notícia de que um livro meu seria publicado; depois, tive que contar que era sobre algo que eu havia feito durante um ano inteiro e que poderia horrorizá-los. Acho que minha mãe pensou que eu tinha sido traficante de crack.
Ela está surpresa, mas não incomodada, pela chuva de cumprimentos dos militantes antiaborto que enxergam em Juno uma mensagem contra a prática.
— Pessoalmente, eu sou liberal e a favor do aborto, mas qualquer um que gostar do filme está bom para mim — diz ela, dando de ombros. — Para mim, é um filme sobre relacionamentos, amor incondicional e maturidade. A gravidez é só um pretexto.
Apesar do interminável rodamoinho de entrevistas e aparições promocionais, Diablo Cody encontrou tempo para continuar trabalhando. Ela foi contratada por Steven Spielberg para escrever o piloto de sua série de televisão The United States of Tara, sobre uma mãe suburbana com múltiplas personalidades, que deve começar a ser filmada quando a greve dos roteiristas acabar. Ela também escreveu o roteiro de seu próximo longa-metragem, uma comédia de horror chamada Jennifer’s Body, sobre uma líder de torcida que devora homens, e que está sendo produzida por Reitman. Ela tem outros três roteiros a caminho e um contrato para outro livro com seu editor.
— Me sinto mais exposta como escritora do que como stripper — diz ela. — Quando eu estava fazendo strip, me sentia bastante neutra emocionalmente, porque não era um grande acontecimento na minha vida. Mas só consigo ver algumas partes de Juno com as mãos diante dos olhos, porque tenho medo do quanto ele é pessoal.
Por que as músicas de Juno estão no topo das paradas
"All I want is you / Will you be my bride… / Take me by the hand and stand by my side”(1) — essas palavras inocentes são cantadas em tom de lamento sobre uma resplandecente base acústica mal tocada. Não é a escolha musical óbvia para acompanhar uma cena em que uma apática adolescente se arrasta em direção a uma loja para comprar um kit de teste de gravidez.
Mas evitar o óbvio é a chave da trilha sonora de Juno. Ali, a música não apenas flutua belamente pelo pano de fundo, como na maioria dos filmes, mas fala sobre os personagens. O que ajuda a explicar por que tantos americanos que assistiram ao filme também estão comprando o cd com sua trilha sonora. Ela está no topo das paradas do iTunes americano desde dezembro de 2007.
O que impressiona é o quanto a trilha é eclética, tão eclética quanto as fitas cassetes que eram trocadas entre adolescentes que gostavam de rock independente (adolescentes como Juno e Paulie). O diretor Jason Reitman montou a trilha com um cuidado de nerd, como Quentin Tarantino faz com suas icônicas trilhas sonoras. Tem um pouco de rock clássico (The Kinks, Mott the Hoople), mas isso apenas enfatiza o quanto o resto é alternativo. Tem indie rock moderninho (Sonic Youth, Cat Power), mas também esquisitices fofinhas: a letra acima é de “All I Want Is You”, uma canção infantil de 1977 de Barry Louis Polisar.
Um dos objetivos das coletâneas gravadas em cassetes dos velhos tempos era atuar como uma identidade; dizia a quem recebia quem o presenteador era, o quanto ele era especial. É o que a trilha de Juno faz pela personagem principal. Como ela, é irônica, mas doce; maneira, mas cafona.
A última faixa é “Anyone Else But You”, cantada de um para outro por Juno e Paulie, com uma emocionante desafinação. É ao mesmo tempo meio sarcástica e completamente sincera. “Here is the church and here is the steeple / We sure are cute for two ugly people.”(2) A composição é do grupo The Moldy Peaches, mas poderia facilmente ter sido composta pelos próprios Juno e Paulie.
Bafta 2008: Juno — 2 indicações: Roteiro Original, Melhor atriz
1. Tudo o que eu quero é você / Você gostaria de ser minha noiva... / Pegue minha mão e fique ao meu lado.
2. Aqui está a igreja e aqui está a torre / Com certeza somos bonitinhos para dois feiosos.
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